FOTOGRAFIA COM UM TOQUE DE SAL

30-Jun-2015

As imagens que compõe esse post foram geradas neste último fim de semana, quando aconteceu aqui no Lab Clube a oficina de Papel Salgado, terceira desse ciclo que se encerra no próximo domingo.

 

Como ainda não falamos nada sobre esse processo aqui no site, pensamos que este seja um bom momento para isso, até mesmo porque o Papel Salgado tem uma história super legal e foi ele, na verdade, a base para todo desenvolvimento da fotografia como conhecemos hoje, sendo o primeiro a usar a lógica positivo-negativo para a reprodução de imagens.

 

Enquanto Daguèrre na França desenvolvia o que viria a ser o primeiro processo fotográfico “oficial”, o Daguerreótipo, na Inglaterra, Fox Talbot também desenvolvia suas pesquisas com materiais fotossensíveis.

 

A história conta que em 1835 durante uma viagem de férias para a Itália com sua nova esposa, Constance, Talbot ficou muito envergonhado de não conseguir desenhar nem mesmo com a ajuda da camera lucida para poder trazer lembranças daquele local (nessa época era comum as pessoas fazerem aquarelas das paisagens em viagens).

Voltando para casa, ele começou a aprofundar suas pesquisas em química com o intuito de alcançar o objetivo de fixar uma imagem no papel.

 

Em 1834 ele já tinha percebido que uma folha embebida em cloreto de sódio e nitrato de prata escurecia em contato com a luz. Na sequência Talbot conseguiu estabelecer as melhores proporções nas quantidades entre o sal e a prata para que uma imagem se formasse, mas ainda não sabia como parar esse escurecimento, ou seja, como fixar a imagem.

 

Durante o verão de 1835 ele encomendou a um marceneiro algumas caixas de madeira, onde colocou uma lente de vidro, que sua esposa chamou de “mousetraps” ou ratoeiras. No fundo da caixa, posicionou pedaços de papel embebidos com sal e nitrato de prata.

Levou as caixas para Lacock Abbey e deixou com a lente apontada para a paisagem por um longo tempo. Ainda imprecisos e sem fixação adequadas, Fox fez pela primeira vez na história imagens fotográficas em papel, o que ele chamou de “desenhos fotogênicos”. Mas a fixação continuava a ser um problema.
Até que um dia, não mais do que um dia, Talbot foi visitar uma das mentes mais brilhantes da época: Sir John Herschel, matemático, físico, astrônomo e inventor de uma série de outros processos fotográficos como o Cianótipo, o Van Dyke e o Anthotype. Ao explicar para ele sua dificuldade na fixação das imagens, Herschel logo encontrou a solução: utilizar hipossulfito de sódio.

 

Não só Herschel resolveu esse problema, como ainda cunhou os termos “positivo” e “negativo” para o processo que vinha sendo desenvolvido.

 

As pesquisas de Talbot ficaram um pouco de lado até que veio o choque: um artigo publicado em 07 de janeiro de 1839 pelo francês François Arago, secretário perpétuo da Academia de Ciências da França relatava a grande invenção feita por Daguerre: o Daguerreótipo, uma câmera obscura que fixava imagens em seu interior, o que ficou sacramentado na história como a invenção oficial da fotografia.

 

Desesperado, apenas três semanas depois, em 31 de janeiro de 1839, Talbot envia uma carta à Royal Society em Londres com o título “some account of the art of photogenic drawing, or the process by which natural objects may be made to delineate themselves without the aid of the artist's pencil” (considerações sobre a arte dos desenhos fotogênicos, ou o processo pelo qual objetos naturais podem se delinear mesmo sem a ajuda do lápis do artista), reclamando para si a invenção da fotografia. Mas já era tarde, e pra piorar a situação do Talbot, consideraram que sua descrição sobre o Papel Salgado escondia muitos segredos e não detalhava bem toda técnica.

 

Apesar de várias tentativas ele foi solenemente ignorado pela França, que já negociava com Daguerre a compra da patente sobre o invento da fotografia, e com tudo isso, Talbot não conseguiu mesmo se firmar como o inventor da fotografia.

 

Porém, o que ele e nem ninguém percebeu na época é que sua descoberta era bem mais completa que a de Daguerre por uma simples, mas total diferença: através do Papel Salgado a imagem poderia ser reproduzida infinitas vezes, enquanto que o Daguerreótipo gerava uma imagem única em uma chapa de metal.

 

Aos poucos Talbot foi melhorando esse “negativo” de papel salgado, ao qual chamou de Calótipo, e usando ácido gálico para sua revelação, reduziu em muito o seu tempo de exposição.

 

Em pouco tempo o Papel Salgado suplantou o Daguerreótipo em termos de importância, pois passou a ser utilizado em livros, publicações e imprensa, o que não era possível com o invento de Daguérre.

 

Entre 1844 e 1846 o primeiro livro de ilustrado com fotografias foi escrito e comercializado por Talbot, o “The Pencil Of Nature”. Hoje em dia restam cerca de 15 exemplares originais em alguns museus e coleções.

 

Talbot nunca conseguiu patentear o Papel Salgado na França, mas conseguiu na Inglaterra e nos EUA. O problema eram os altos preços que ele cobrava àqueles que quisessem utilizar a fórmula. Por causa disso, vários outros inventores começaram a fazer modificações na fórmula de Talbot, com a justificativa de apresentar melhorias, mas na verdade a grande intenção era fugir dessas cobranças tidas como abusivas na época.

 

Em 1850 o francês Louis Blanquart-Evrard introduz o processo chamado Albumen Print, que nada mais é o Papel Salgado com uma base de clara de ovo, o que conferia um aspecto mais brilhoso, tipo “glossy paper”, e esse papel sim foi vendido em massa na Europa no final do século XIX. Estima-se que na cidade alemã de Dresden, por volta de 1870, chegaram a usar cerca de 6 milhões de claras de ovos para se fazer papéis albuminados. Talbot, ao saber disso, escreveu mais uma carta à academia de ciências e também aos jornais acusando Blanquart de pirata.

 

Talbot foi um grande injustiçado na sua época e, diferente de Daguerre que era um marketeiro excelente e um comerciante já bastante influente na França, não soube como lidar comercialmente com sua invenção, usando sempre estratégias erradas, como tentar controlar o uso do invento cobrando altas taxas e sonegando informações técnicas e científicas.

 

Mas o tempo passou, e a justiça, de certo modo, foi feita, porque hoje as invenções de Talbot é que são consideradas as grandes responsáveis pelo desenvolvimento da fotografia tal como conhecemos e vivenciamos em nosso dia-a-dia.

 

 

 

 

Abaixo você pode ver algumas imagens em Papel Salgado produzidas durante a última oficina.

 

 Marta Geraldes

 

 Marta Geraldes

 

 

 Marco Antônio

 

 Lilian Soares

 

 Fernanda Ribeiro

 

 Fernanda Ribeiro

 

 Fabio Duarte

 

 

 Ana Hortides

 

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