A Invenção da Fotografia no Brasil - Hercules Florence

Hoje, 08 de Janeiro, é considerado o Dia da Fotografia no Brasil, história cheia de controvérsia, que já contamos aqui nesse POST.

Então, pra aproveitar o dia, vamos falar não da chegada da fotografia no Brasil, mas sim da Invenção da Fotografia no Brasil.

Oi? Pois é... Vai lendo..

Muito se sabe sobre a invenção da fotografia por parte dos europeus Daguerre, Niepce e Talbot. O que muita gente ainda não sabe é que simultaneamente a todas as pesquisas desenvolvidas na Europa, principalmente França e Inglaterra, no longínquo pais chamado Brasil, na pequena vila de São Carlos (o que hoje é Campinas) longe de toda e qualquer fonte de informação e incentivo, um pioneiro chamado Antoine Hercule Romuald Florence, francês radicado no Brasil desde seus 20 anos de idade, dedicou boa parte de sua vida à pesquisa de fixar as imagens reais em um suporte usando apenas a ação da luz, ainda na década de 1830.

Hercules Florence - Pioneiro da Fotografia

Suas descobertas acerca do uso da camera obscura e papel embebido em Nitrato de Prata, tem as primeiras anotações entre os dias 15 e 20 de janeiro de 1833 e são muito próximas as que o inglês Fox Talbot fez em 1834. De todo modo essas descobertas ficaram esquecidas ate a década de 1970, quando o historiador Boris Kossoy trouxe à tona ao publicar o livro "Hercules Florence: a descoberta isolada da fotografia no brasil". (Veja aqui no LINK)

Após anos de pesquisas dos manuscritos de Florence, artigos de jornais da época e posteriores testes práticos dos procedimentos descritos por Florence no Rochester Institute of Technology (EUA), ficou comprovada o seu pioneirismo.

Ele, inclusive, foi o primeiro a usar o termo "photographie" em seus escritos, em 1833, seis anos antes do termo ser utilizado na Europa. Mas, devido ao seu isolamento no interior do Brasil, país que, apesar de já independente, apresentava uma estrutura colonial muito forte e ainda escravocrata, com nenhum recurso para pesquisa e inventos, suas descobertas não ficaram conhecidas do publico. Nas próprias palavra de Florence:

"Em um século em que se recompensa o talento, a Providência me trouxe a um país onde isso não importa. Sofro os horrores da miséria, e minha imaginação está plena de descobertas. Nenhuma alma me escuta, nem me compreenderia. Aqui só se dá valor ao ouro, só se ocupam de política, comércio, açúcar, café e carne humana. Sem dúvida conheço algumas almas grandes e belas, mas essas, em número muito reduzido, não têm formação na minha linguagem e eu respeito sua ignorância".

Mas curiosamente, segundo Kossoy, essa mesma precariedade de recursos foi o que incentivou Florence a começar a pesquisar.

Não havia em Campinas (e havia pouquíssimas no Brasil) oficinas tipográficas, e com interesse de publicar seus estudos sobre o som dos animais a que chamou de "zoophonie" (resultado das observações feitas durante as expedições que participou como desenhista do "Projeto Langsdorff") e percebendo a dificuldade de operação da litografia e da gravura, passou a pesquisar um novo processo bem mais simples e barato, que chamou de "poligraphie", onde uma única prancha era embebida em tinta, imprimindo todas as cores ao mesmo tempo.

Apesar do caráter inovador de seu invento, Florence se deparou com a total passividade tanto dos órgãos oficiais, quanto do público em geral no Brasil. E mesmo tendo remetido para a academia francesa toda a descrição do processo em 1831, nunca obteve nenhum retorno.

Florence continuou insistindo na poligraphie, certo de sua aplicação prática principalmente para bancos, câmaras municipais e diversas administrações através da criação de um "papel inimitável", contra falsificações.

Poligraphie

Paralelamente as pesquisas com a poligraphie e tentativas de "colocá-la no mercado", ele começou a desenvolver pesquisas de formação de imagens usando a propriedade fotossensível de alguns materiais, principalmente o nitrato de prata, cloreto de prata e cloreto de ouro.

Não vamos aqui nos alongar nos diversos testes e experiências feitas por ele, mas que o procedimento descrito na pagina 355 do livro resume bem o seu processo.

"Encontrei um meio de evitar que as cópias impressas escureçam: coloque a camada de nitrato de prata sobre o papel e deixe-a secar no escuro; mergulhe em água que tenha sal comum diluído e deixe secar no escuro; passe, em seguida, potassa cáustica líquida e deixe secar no escuro. Imprima ao sol, lavando com espirito de amoníaco"

Antes ele usava a própria urina para fixar as imagens, se valendo da amônia contida na urina.

Apenas para comparação, o "desenho fotogênico" de Talbot consistia em um papel embebido em sal comum (cloreto de sódio) e posteriormente aplicado nitrato de prata, exposto a luz e depois lavado com uma solução forte de sal para fixar (posteriormente substituído por hipossulfito de sódio, por sugestão de John Herschel).

A grande preocupação de Florence era a de que a "cópia" ficava invertida. Onde deveria ser claro, ficava escuro e vice-versa.

Em uma de suas primeiras experiências ele desenvolveu o que podemos chamar de um negativo de vidro: uma chapa de vidro escurecida pela fumaça de uma candeia, que depois era desenhada com uma ponta seca, retirando a fuligem de certas partes para deixar a luz passar e assim escurecer o papel apenas nos pontos desejados. No que ele descreve como "2a experiencia", ele escreve no vidro com fuligem

" E tu, Divino sol, empresta-me teus raios"

E levou ao sol sobre um papel embebido com nitrato de prata, obtendo assim o desenho. Logo depois ele queimou esse papel para "ver o que acontecia ao nitrato quando exposto as chamas"

Fizemos uma brincadeira aqui no Lab copiando o que ele fez no primeiro teste:

Video 1 - Escurecendo o vidro na fuligem da vela

Video 2 - Escrevendo com ponta seca

Video 3 - Expondo ao sol com papel embebido em Nitrato de Prata

E o resultado final!

Não faltam nas anotações de Florence a percepção de que o fato de estar tão isolado no Brasil seu invento não teve nenhum repercussão apesar de todos os seus esforços. Ele se sentia muito deslocado, sem tem com quem trocar informações e sem nenhum tipo de incentivo externo, contava apenas com o seu espirito inquieto e sua mente fervilhante. O momento de maior impacto é justamente quando ele toma conhecimento da descoberta de Daguerre e sua divulgação, que ele descreve da seguinte forma em seu "3me Livre de premiers matériaux"

"Foi em 1839. Eu estava na fazenda de um amigo. Estava contente e conversando muito com um de seus hóspedes, um homem de leitura e instrução. Era noite e falávamos sobre diversas coisas, ao luar, sentado em uma viga à beira do rio. De repente, ele me disse: - Você sabe da bela descoberta que acabam de fazer? - Não, respondi. - É uma coisa admirável! Um pintor, em Paris, descobriu a maneira de fixar as imagens na câmara escura. Li sobre isso no Jornal do Commercio: ele coloca no foco uma placa de prata, na qual se encontra um sal que muda de cor pela ação da luz. Já conseguiu duas ou três cores.

Senti uma dor no coração, no sangue, na medula dos ossos, em todo meu ser. Refreei em mim o choque mais brutal que jamais havia experimentado e não perdi a compostura. Perguntei sobre alguns detalhes, mas o jornal não havia explicado senão por umas poucas palavras. Disse-me que a descoberta era segura, pois o sr. Arago a explicara perante a Academia, e que a Câmara dos Deputados concedera uma recompensa a seu autor. Passei, então, a explicar-lhe a teoria daquela descoberta e voltamos pra casa. Eu não era a mesma pessoa de alguns momentos antes; em mim, e em torno de mim, tudo era sombra; os objetos, os sons eram confusos, mas consegui aguentar razoavelmente a parte que me cabia na conversação naquela pequena sociedade de amigos. Eu sofria mas comi com bastante apetite e fui me deitar achando que iria passar uma noite ruim, pois minha dor moral era forte. Dormi razoavelmente bem. Nunca saberei o tanto que agradecer a Deus por ter me dado uma alma forte. Antes dessa provação, eu desconhecia."

Lendo esse relato conseguimos perceber um pouco do que foi o impacto pra ele Aos poucos essa historia vai ficando mais conhecida e hoje em dia já vimos algumas citações (ainda que superficiais) ao nome de Hercules Florence pelos principais historiadores da imagem fotográfica, mas ele ainda está longe de ser incorporado a galeria dos inventores da fotografia e a gente espera com esse texto difundir um pouco mais essa historia.

E você, já sabia que a fotografia também foi uma invenção brasileira? Fala pra gente!

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