Nadar: a expressão mais surpreendente de vitalidade na fotografia

6-Apr-2018

Você que acompanha o blog do Lab Clube sabe que a gente tem verdadeira paixão pelos pioneiros da fotografia! Essa gente louca, visionaria e claro, dotada de um conhecimento verdadeiramente enciclopédico, versados em física, química, matemática e etc, e que nos trouxeram as mais diversas invenções.

 

Essa figura da qual vamos falar hoje, embora não tenha inventado exatamente um processo fotográfico, foi importante e esteve presente em vários momentos históricos e decisivos, quase um Forrest Gump da fotografia! Ladies and Gentlemen, é com muito orgulho que apresentamos agora o Senhor Nadar.

 

Hoje, 06/04, ele completaria 198 anos, e todos, tenha certeza, muito bem vividos!

 

 

 L'autoportrait Tournant - Animação feita a partir de 12 autorretratos feitos em 1865 

 

Nascido em Paris em 1820, apenas 6 anos antes de Niépce conseguir realizar a primeira fotografia (link aqui sobre o assunto), Gaspard-Félix Tournachon, conhecido pela história como Nadar, cresceu junto com a burguesia francesa e acompanhou todo o desenvolvimento da fotografia. Dono de uma personalidade intensa e inquieta, como bem disse seu amigo na época, o poeta Charles Baudelaire: “Nadar, the most astonishing expression of vitality” ("Nadar, a expressão mais surpreendente de vitalidade" via google translator) era extremamente vaidoso, mas bastante gregário também, ou seja, conseguiu reunir sempre ao longo da sua vida muitas pessoas interessantes a sua volta.

 

Nadar abandonou a faculdade de medicina em Lyon quando a empresa de seu pai foi a falência e passou a se dedicar a desenhar caricaturas. Fez fama trabalhando em revistas e jornais satíricos, já retratando as personalidades da época. 

Capa do "Journal Amusant "  com desenhos de Nadar

 

 

 

 

 

 

1853

 

 

 

Nadar aprende a fotografar e seu grande interesse passa imediatamente a ser os retratos. Ele buscava “capturar a essência” do seu objeto, tentando deixar todos muito a vontade em seu estúdio, de forma que “esquecessem” que estavam sendo fotografados, tarefa bastante ingrata quando tinha que posicionar a gigantesca câmera no tripé, com um pano preto em cima na frente do seu fotografado.

 

 Paul Gustav Doré por Nadar em 1855 

 

 

1854

Cria seu primeiro e ousado projeto: O Pantheon-Nadar - Um enorme painel em litografia com caricaturas dos mais proeminentes artistas, escritores e intelectuais da França. Quando ele começa a preparar o segundo painel, passa a usar os retratos tirados como base para o desenho. Também por conta disso, suas fotografias eram menos posadas e mais espontâneas que as fotografias de estúdio feitas na época, criando assim uma primeira modificação na linguagem fotográfica. Personalidades como Gustave Doré, Charles Baudelaire, Eugène Delacroix, Victor Hugo, George Sand, Alexandre Dumas, Sarah Bernhardt, Jules Verne, Honoré de Balzac, Manet, Monet ficaram em frente a sua câmera e apareceram no Pantheon-Nadar.

 

 

 

1855

Abre seu primeiro estúdio fotográfico, em parceria com o irmão.

 

1858

Teve a ideia de fotografar as catacumbas e esgotos de Paris, precisando para isso criar o primeiro sistema de iluminação artificial para fotos, utilizando luz de magnésio.

 

 Catacumbas de Paris

 

1858

Nadar era apaixonado por balonismo e em 1858 teve a ideia de levar sua câmera para dentro de um balão. Fez então as primeiras imagens aéreas da história. Como toda a manipulação dos aparatos de laboratório e a produção da fotos dentro do balão era algo complicado demais na época, devido ao espaço pequeno e aos gases expelidos que prejudicavam as fotos, ele resolveu partir para um projeto ainda mais audacioso: construir seu próprio balão! E construiu alguns anos depois!

 

OBS: nessa época usava-se o processo do colódio úmido, onde a chapa tinha que ser preparada, fotografada e revelada num período de tempo curto, enquanto ainda estivesse úmida, ou seja, era necessário levar um laboratório para onde se quisesse fotografar

 

 Vista aérea de Paris

 

1860

Abriu seu próprio estúdio fotográfico em uma importante avenida de Paris, o "Atelier Nadar". Em pouco tempo o estúdio virou ponto de encontro de artistas, escritores e intelectuais parisienses. Assim, como sua personalidade, a aparência de Nadar era bastante excêntrica: Exibia cabelos e bigodes vermelhos, além de ser alto e corpulento. Ou seja, chamava atenção por onde passasse. O vermelho fazia parte de seu corpo, de sua personalidade e de tudo a seu redor: Seu estúdio tinha a fachada vermelha, as paredes vermelhas e ele recebia os convidados usando um roupão vermelho...

 

Fachada do Atelier Nadar 
 
1863

Acontece o primeiro voo no balão construído por Nadar, apelidado muito apropriadamente de Le Géant (O Gigante). Com capacidade para 12 passageiros e ainda com um quarto transformado em laboratório (portanto protegido dos tais gases), Nadar consegue excelentes resultados em fotografias aéreas, planos da cidade de Paris e região. Estima-se que 200 mil pessoas foram assistir a primeira decolagem do balão.

Mas infelizmente, em seu segundo voo, após 19h de viagem a caminho da Alemanha, o balão caiu, quase matando todos a bordo, fazendo com que Nadar quebrasse as duas pernas e que sua esposa ficasse seriamente ferida na coluna.

 

Esse empreendimento ainda inspirou seu amigo, o escritor Julio Verne, a escrever seu primeiro romance: Cinq semaines en ballon (Cinco Semanas em Balão).

 

 Le Geánt

 

1865

Muito empolgado com a possibilidade do homem voar, lança o livro-manifesto chamado “o direito ao voo” e funda a "The Society for the Encouragement of Aerial Locomotion by Means of Heavier than Air Machines" (Sociedade de Incentivo à locomoção aérea por meios mais pesados que o ar), em que era o presidente, e Júlio Verne o secretário.

 

 

1870

 

Iniciou o primeiro serviço de correio aéreo do mundo: Paris havia sido bloqueada por conta de uma guerra contra a Prússia e as correspondências não podiam ser enviadas nem recebidas. Nadar organizou uma frota de balões para levar as cartas de Paris a Normandia, furando assim o bloqueio.

 

 

1874

As bases da pintura tradicional estavam mudando. Os novos artistas já não pintavam imagens realísticas, pois a fotografia havia assumido esse papel. Alguns artistas que vinham sendo recusados nos mais renomados e tradicionais salões de arte, resolveram fazer uma exposição por conta própria e Nadar cedeu o seu estúdio  para a realização dessa exposição: nada mais, nada menos do que o grupinho composto por Claude Monet, Pierre-Auguste Renoir, Pissarro, Alfred Sisley, Paul Cézanne, Berthe Morisot, Edouard Manet e Edgar Degas, ocupou com suas telas uma das paredes vermelhas do estúdio de Nadar. A exposição não foi bem recebida pela crítica e foi publicado numa revista da época o seguinte comentário sobre uma das obras de Monet:

 

“Impressão. Estava certo disso. Até estava dizendo a mim mesmo: se fiquei impressionado, tem de haver algo impressionante nisso… e que liberdade, que trabalho manual fluido! Um papel de parede chinfrim é mais bem acabado do que essa paisagem!”

 

Sem querer, o crítico de arte ao publicar esse texto, acabou batizando um dos mais importantes movimentos da arte mundial: O IMPRESSIONISMO

 

 Impressão: Nascer do Sol de Claude Monet

 

1885

Fotografou Victor Hugo em seu leito de morte.

 

 

 

1886

Faz a primeira "entrevista fotográfica", uma série de 21 imagens do cientista francês Eugène Chevreul legendadas com respostas a perguntas feitas por Nadar durante os cliques.

 

 

 

Aos 80 anos, ele publica sua auto-biografia “Quand j’étais photographe” (disponível também em inglês atualmente), em que narra suas aventuras.

 

Ele era incrível ou não era?

 

 

 

 

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