Mais diferenças entre o Citrato Verde e o Marrom - Parte 2

23-Jul-2019

No post anterior apresentei a primeira diferença entre os citratos: a quantidade dos íons ferro, citrato e amônio em cada um.

Na prática da cianotipia, o que isso influencia é na hora de preparar as soluções pra emulsionar os papéis.

Nunca haverá uma receita única: a cada citrato adquirido a receita deve ser ajustada.

Daí vem a quantidade de receitas disponíveis na internet. E você ainda pode ter que ajustar a sua! Se a receita for ajustada, a chance de ter problemas nos resultados finais são bem diminuídas.

E tal como foi falado no post anterior, PROVAVELMENTE um dos motivos do citrato verde ser considerado melhor para fazer a cianotipia do que o citrato marrom é o fato de ele ter uma menor variação em sua composição. Então fica mais fácil fazer os ajustes necessários.

 

Talvez você tenha se perguntado: por que a quantidade de ferro varia entre eles? Na indústria colocam quantidades diferentes cada vez que vão produzir os citratos?

A resposta é: Não necessariamente.

 

Para realizar a síntese, são feitos os cálculos das quantidades de reagentes e das proporções que serão utilizadas para se obter o composto. No caso dos dois citratos geralmente são feitos baseados na seguinte proporção 1:3:3 (ferro:citrato:amônio)

 

Segundo a literatura técnica de química, tanto o citrato verde quanto o citrato marrom são sintetizados nas indústrias a partir da mesma mistura de Fe(OH)3 que é o hidróxido de ferro, com ácido cítrico que tem a fórmula C6H8O7 e com hidróxido de amônio que tem a fórmula NH4OH.

 

Em outras palavras: os reagentes usados na obtenção dos citratos verde e marrom são os mesmos, as proporções entre os reagentes são as mesmas, mas o jeito de fazer é diferente.

 

O citrato verde é obtido a partir de uma solução que é ajustada para ficar com pH ácido e o citrato marrom é obtido a partir de uma solução que é ajustada para ficar com pH básico.

 

 

 

Portanto quando termina a síntese e o composto é obtido, dependendo do procedimento escolhido, o composto será verde, com uma menor quantidade de ferro em relação à quantidade de citrato (proporção citrato:ferro) e apresentará características ácidas.

Enquanto se o procedimento adotado for o outro, o composto será marrom, com uma maior quantidade de ferro em relação à quantidade de citrato e com características básicas.

As possibilidades de combinação entre os reagentes são muitas, vejam as fórmulas  que já foram encontradas até hoje:

 

 

 

 

A fórmula (ou seja como os átomos estão arranjados no compostos) de cada um dos citratos fica bem diferente se o pH de síntese muda. Por exemplo, em um trabalho publicado em um artigo científico foi discutido que o citrato verde é uma mistura de 50%/50% da fórmula 1 e da fórmula 2.

 

Já no caso do citrato marrom 67% de sua composição a fórmula 1 e um pouco de ferro na forma de óxido/hidróxido (este último seria o responsável pela coloração marrom).

Mas todas as outras fórmulas citadas já foram detectadas em outros trabalhos científicos envolvendo os citratos.

E os diferentes compostos acima citados que podem ter sido formados, vão influenciar na sensibilidade a luz da solução “A” que é preparada com o citrato verde ou marrom. Pois a sensibilidade à luz depende do ferro e do citrato.

 

Raciocina comigo:

 

Se o citrato foi sintetizado em pH ácido e todo o ferro presente está ligado aos citratos como mostramos no post da parte 1, e nas fórmulas descritas acima, ele será bem sensível a luz.

Mas se ele foi sintetizado em pH básico, e uma parte do ferro estiver na forma de óxido/hidróxido de ferro, este último composto não é sensível a luz, pois não apresenta citrato em sua fórmula. Portanto não vai reagir com a solução “B” pra formar o azul da prússia. Além do fato deste composto ser amarelado/amarronzado e ainda poder amarelar sua cianotipia.

 

Por isso que às vezes a gente compra um citrato férrico marrom que apresenta bons resultados e às vezes a gente compra um citrato marrom que não funciona tão bem. Vai depender de como ele foi feito na indústria. Se há uma pequena quantidade de óxido/hidróxido, que praticamente não vai influenciar na sensibilidade ou se há uma grande quantidade do composto, que aí sim pode atrapalhar.

Agora é hora de concluir: Vamos ver as diferenças entre os citratos apresentadas nos dois posts até agora:

 

 

 

 

Tabela 1: diferenças entre os citratos férricos (* pode variar dependendo da referência)

 

 

 

E na prática, o que estas diferenças vão mudar na minha cianotipia?

 

  1. Você sabe que as concentrações das soluções A e B devem ser testadas e ajustadas a cada compra de reagentes (POST PARTE 1).

  2. Não existe uma “receita correta” de como fazer a cianotipia. As diferenças das “receitas” disponíveis dizem respeito à realidade das condições ao fazer o cianótipo. Portanto não há uma verdade. Apenas condições que foram ajustadas para aquela situação (POST PARTE 1).

  3. A sensibilidade à luz pode ser diferente. Vai depender dos compostos presentes.

  4. A cor do seu cianótipo pode variar. Se houver a presença de oxido/hidróxido em grande quantidade, além de mudar a sensibilidade a luz, ele pode amarelar os brancos.

 

Daí que mais uma vez, vem àquela conversa que o citrato verde “pode ser” uma escolha menos problemática para fazer sua cianotipia. Gosto de ressaltar que PODE SER MELHOR e não necessariamente o Citrato Verde É MELHOR. Pois se o citrato marrom estiver de boa qualidade para cianotipia, ele dará ótimos resultados. Quando falo de boa qualidade para cianotipia, quero dizer que os citratos são usados para outras coisas também, como por exemplo, suplementos de ferro pra saúde. E pode ser que para desempenhar essas outras funções ele esteja ótimo!

 

Pra finalizar... esse papo de pH  ou da sensibilidade a luz depender dos citratos ainda rende assunto...

 

Mas serão assuntos dos próximos post!

 

Grande beijo

 

 

 

 

 

Please reload

Recomendados

Daguerre - Um Gênio ou um Aproveitador?

November 18, 2019

1/4