Daguerre - Um Gênio ou um Aproveitador?

18-Nov-2019


Hoje, 18/11, seria o aniversário de 232 anos de Louis Jacques Mande Daguerre, o inventor "oficial" da fotografia.


Foi a criação dele, o Daguerreótipo, que foi comprado pelo governo francês em 1839 e “doado a humanidade” o que acabou se configurando como a invenção oficial da fotografia, embora muito antes, em 1826, o também francês Niépce já conseguisse obter e fixar imagens em uma superfície . (Se você quiser saber mais sobre isso, já falamos aqui https://www.labclube.com/single-post/2015/08/19/Olha-o-passarinho)


Mas não é essa historia que queremos contar agora. Queremos falar da polêmica que envolve a sua parceria com Niepce... 


 

Daguerreótipo de Daguerre - feito por Pierre-Ambrose Richebourg ca. 1844
(acervo Metropolitan Museum of Art)


Em muitos livros sobre a historia da fotografia, ele é colocado como um espertalhão, um aproveitador dos conhecimentos de Niepce e que, por ser homem de negócios rico e poderoso, acabou levando todos os méritos pela invenção. Essa fama ganhou ainda maiores proporções quando, em 1841, o filho de Niepce, Isidore Niepce, publicou um livro chamado “Historique de la découverte improprement nommée daguerréotype, précédé d’une notice de son véritable inventeur Joseph-Nicéphore Niépce"

 

ou "História da descoberta chamada daguerreótipo indevidamente, precedida por um registro de seu verdadeiro inventor Joseph-Nicéphore Niépce " --> via google translator 

:)

 

Em cerca de 80 páginas ele descreve como seu pai foi enganado pelo esperto Daguerre, acusando-o de usurpador de todo o conhecimento de Niepce. 


Mas será que foi isso mesmo? Você pode ler a história abaixo e tirar as suas próprias conclusões.... Saiba que essa é uma polêmica entre os historiadores..

 

Bernard Marbot, conservador chefe do departamento de estampas e fotografia da Bnf resume um amplo consenso: "A contribuição de Niépce é considerável, a de Daguerre, irrisório”. (no livro Histoire de la photographie, Jean-Claude Lemagny e André Rouillé) 

 

Mas também existe um site inteiro dedicado a retirar detalhes da comunicação entre os dois, provando que Daguerre deu sim contribuições importantíssimas a Niepce: http://www.niepce-daguerre.com/conseils_de_Daguerre.html


Bom, vamos voltar lá em 1826 quando Niepce conseguiu obter e fixar a primeira imagem fotográfica da história a partir da janela de seu estúdio, num processo que ficou denominado Heliografia.
 

Niépce e duas versões da primeira foto "Point de Vue Du Gras": a heliografia original e a escaneada e tratada


Na mesma época, Daguerre já estava envolvido e era bem sucedido com o Diorama 

O Diorama de Daguerre consistia de uma tela de gaze espessa pintada dos dois lados, que quando iluminada pela frente, a cena era apresentada num determinado estado, e quando a iluminação era feita por trás, um outro estado ou aspecto da cena podia ser visto. Cenas à luz do dia mudavam para cenas noturnas, um trem trafegando numa estrada de ferro colidia, ou os efeitos de um terremoto eram exibidos nas situações "antes e depois". (da wikipedia)

 

TROMPE-L'OEIL. Peint par Louis Daguerre, ce décor a été inauguré en 1842. 

Stéphane Lagoutte/Andia pour L'Expres

Único Diorama original preservado ainda hoje em Bry-sur-Marne - França

Portanto, ambos se utilizavam de câmeras obscuras e consequentemente demandavam lentes e materiais óticos.
Coincidentemente, era Vincent Chevalier o ótico que atendia aos dois e foi ele quem contou a novidade a Daguerre. Mas não apenas isso, também lhe passou o endereço de Niepce. Daguerre não perdeu tempo e logo se comunicou com Niepce. Conseguiram se encontrar rapidamente em 1827 durante uma passagem de Niepce por Paris, simpatizaram muito um com o outro e começaram a trocar correspondências. Mas apenas em 1829 Niépce propôs a Daguerre de formarem uma associação para o desenvolvimento da Heliografia. O contrato foi assinado em dezembro de 1829 e ambos começaram a pesquisar mais a fundo as possibilidades do processo que tinha por base o uso de Betume da Judéia. Nessas pesquisas acabaram por inventar em conjunto um novo processo chamado Physautotype (SAIBA MAIS EM BREVE POR AQUI).

Acontece que pouco tempo depois, em julho de 1833, Niepce tem um derrame e falece aos 68 anos.

 

No contrato assinado entre eles, em 1829, constava que em caso de morte de um dos 2, seus herdeiros tomariam parte na pesquisa. Então Isidore Niepce assume sua parte em continuar a sociedade e pesquisas com Daguerre, porém ele não era com o pai... Não tinha tanto conhecimento quanto ele e nem o mesmo espírito de pesquisador/inventor... Por conta disso, Daguerre passou a investigar sozinho e variou também as possibilidades de procedimento, saindo do Betume da Judéia (que tinha várias limitações) e partindo para as investigações com a prata. Aos poucos ele foi desenvolvendo os procedimentos, conseguindo mais definição na imagem, menor tempo de exposição (mesmo ainda não sendo suficiente pra produzir retratos) e melhorando a fixação, até que em 1835, conseguiu chegar ao formato quase final de seu processo, a que chamou de DAGUERREÓTIPO. A Heliografia e o Physautotype estavam então suplantados, antes mesmo de terem sido divulgados.


Em 1837 Daguerre então propõe a Isidore que divulguem publicamente os 3 processos. Mas já sabendo que apenas o processo inventado por ele poderia ser viável comercialmente, exige que haja uma mudança no nome da sociedade para «société sous la raison de commerce Daguèrre et Isidore Niépce pour l’exploitation de la découverte inventée par Daguèrre et feu Nicéphore Niépce », colocando assim o nome de Niepce em segundo plano.
 


Com o processo já desenvolvido, Daguerre começou a tentar vender sua invenção por conta própria. Mas ainda não era possível fazer retratos.. O tempo de exposição ainda era algo em torno de 10 minutos. Então sua “propaganda” consistia em dizer que seu invento era bom para “tomar belas vistas”, “catalogar suas coleções” e também seria um bom “entretenimento para pessoas com muito tempo livre, como as senhoras”.

 

Esse tempo foi posteriormente reduzido para alguns segundos, com a descoberta da imagem latente que poderia ser revelada usando vapores de mercúrio.

 

Como seu negócio com o Diorama estava meio em baixa (muito dizem inclusive que ele estava falido, principalmente após um incêndio que ocorreu) e como não obteve sucesso em suas tentativas de venda do Daguerreótipo, Daguerre resolve entrar em contato com um conhecido deputado chamado François Arago, membro da Academia de Ciências Francesa. Arago se torna um grande entusiasta da invenção e ele mesmo sugere que Daguerre tente vender o processo ao governo francês. Começa assim uma campanha para convencer os demais membros da academia.

 

 

François Arago

 

Em janeiro de 1839 Daguerre fez a primeira apresentação pública de seu processo e deixou a todos encantados. A partir daí foi apenas uma questão de tempo para que o governo francês comprasse, enfim, em 19 de agosto de 1839, a patente do daguerreotipo e doasse a humanidade.

Em troca disso, o governo concedeu uma pensão vitalícia de 4000 francos para Isidore Niepce e outra de 4000 francos para Daguerre, além de uma pensão complementar de 2000 francos a Daguerre pelo invento do Diorama.​

Nessa apresentação o nome de Niepce foi muito pouco citado, o que acabou deixando-o de fato num segundo plano. Daí veio o rancor de seu filho Isidore que brigou com Daguerre até o fim da vida...

 

 

Após o anúncio da compra da patente pelo governo francês, Daguerre se dedicou a divulgação e popularização do processo daguerreotipo. Organizou muitas apresentações públicas para cientistas e também artistas. Logo depois, fundou com o seu sogro, A. Giroud uma empresa para fabricação de câmeras para daguerreotipia, facilitando assim o acesso aos interessados.

 

 

 

Ou seja, as pessoas não precisavam pagar pelo uso do processo (o que aconteceu com muitos outros em que os inventores exploravam os direitos autorais), mas todos recorriam a ele e a sua empresa familiar para comprar os materiais necessários para iniciar a prática. Em pouquíssimo tempo a daguerreotipia virou uma febre mundial, com estúdios fotográficos em todo o mundo oferecendo esses serviços.  Juntos eles publicaram um manual de instruções de como utilizar as câmeras e fazer daguerreotipias.. Esse manual foi impresso em diversas línguas e reimpresso muitas vezes.

 

Aos poucos a própria câmera foi sendo melhorada, diminuindo seu peso e tamanho, aumentando a qualidade ótica, começaram a usar prismas para que a imagem não saísse invertida.... E o daguerreotipo foi muito usado por mais de 10 anos, até ser suplantado por outro processo mais efetivo: o colódio úmido
 

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